A maconha como estratégia de redução de danos frente à fissura de crack: uma revisão

A maconha como estratégia de redução de danos frente à fissura de crack: uma revisão

José Arturo Costa Escobar, Mayara Aline das Chagas Ferreira, Vanessa Maria da Silva, Lorena Galvão Barreto da Silva, Jeanne Ferreira Andrade Vianna, Juliana Cristina Teixeira Barbosa

Resumo


A maconha é hoje uma planta em redescoberta, advinda de antigas simbolizações e usos culturais. O debate acerca das possibilidades medicinais e/ou terapêuticas da maconha é questão em evidência, redescoberta histórica e, paradoxalmente questiona a hegemônica política mundial proibicionista. Este trabalho orientou-se pelo objetivo de levantar na literatura estudos realizados sobre a dependência, principalmente de crack, cujo o auxílio da maconha ou derivados tenha apresentado papel ou função substitutiva e de redução de danos. Assim vislumbramos recuperar primeiramente o debate brasileiro sobre a maconha terapêutica. Segundo, adentrar sobre as possibilidades de uso das ditas drogas proibidas, proscritas, ou vulgarmente denominadas como drogas de abuso, evidenciando os aspectos terapêuticos no atual estado da arte. Por fim, avançamos o debate buscando trazer as evidências científicas que sustentam o potencial da maconha em relação à dependência de crack. As possibilidades de usos da maconha são campo aberto para intervenções e investigações, sejam do ponto de vista acerca das circunscrições epistemológicas, enquanto uso medicinal e/ou terapêutico, adentrando à bioética como forma de compreensão das relações de consumo e impactos intraindividuais relacionados ao uso recreativo. Conquanto, o advento imediato da maconha como ferramenta terapêutica sobre a grave disfuncionalidade que o consumo de crack pode causar em determinadas pessoas, parece suficientemente evidenciada a positiva implicação no manejo pessoal de problemas. A disponibilidade dessa tecnologia social pode estar brevemente acessível em função de progresso sobre as leis de drogas no Brasil, tal como ocorre em países mais comprometidos com direitos humanos no mundo.


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